-você sabe...
“não, não sei”
(...)
-...não sabe?
-não, não sei.
-mas irmão, o irmão sabe sim. eu quero que você, independente de estar ou não na igreja, não mude conosco. eu sou teu amigo. mas o irmão sabe que nós estamos num mundo passageiro. eu sei que o irmão sabe que só (nesse momento Jesus aparece entre os dois. o visitante deixa o menino porque subitamente ocorreu-lhe uma parede defronte; sem entender, pensa estar na parte de fora da casa, então caça a porta, quando vê que seu corpo está perspectivado numa abastada avenida, longe do subúrbio – e mais, completamente desorientado quanto a localização deste – onde fora visitar o irmão irônico. professor de geografia, escreva com gel elegias domingueiras. fica emperrado numa corbelha de lírios, mas não olha, isto é, não olha para os lírios da corbelha. seu nome poderia ser Gertrude, mas é Paulo. para o que olha? para os versículos 28 e 29 de Mateus 7. lírio lírio lírio, repetiria uma abominação chamada Gertrude.)(ao mesmo tempo o menino que abriu a porta para o irmão sente um in-oitavo em suas mãos, e suas mãos passando o calhamaçozinho de uma mão para a outra, num trejeito bobo. ontem havia chovido, mas hoje o sol era um sofisma opalino. o menino sente o suor criado pela fricção da mão na capa do in-oitavo. repara e vê que a capa é vermelha e as bordas são amarelas. finalmente vê que capa e bordas são um livrinho, tido com ele ali por quantos milênios, e só agora a conta... por um anônimo motivo, mas dele, ainda demora uma era para folhear o livrinho. quando descobre o motivo, suas digitais – conseguiu virar a capa e chegar na folha de rosto com os cotovelos – lê timidamente o título escrito com abdomes de formigas de fogo – ele reconheceria aqueles abdomes na barriga de um vulcão; fossem as cabeças, elas se enfileirariam pelas digitais e dançariam até a pele exasperar – Missalzinho da Bichinha. assusta-se um pouco com o título, se pergunta quem poderia ter sido tão malvado, a nuca escorrega pela espinha e ele reconhece a própria letra modelada como silhueta de Ana Mendieta. eu sou uma bichinha e um moleque, alice me ama – alguns fragmentos picam sua testa, ele passa a mão enxugando, tenta coçar uma espinha mas sua face está crespa, lembra que estava pintando com esmalte de unha o rosto para uma performance, o nome da cor é dara, era um sangue postiço coalhado perfeito e ardia, ardia, ardia, então quando ele já ia terminando chegou o homem que sentia saudade, que queria-o na igreja, com toda a sua inteligência e dedicação e volatilidade, a ser dosada e verdadeiramente consertada, a bem de termos claros. alerta, descobre o erro: o plano era pintalgar apenas a face, cobrindo toda a área do rosto exceto a testa, a fronte das orações limpa daquele sangue de plástico; mas enquanto o homem falava ele não notara que a tampinha havia rolado para a mão da visita, que se punha empaticamente a pintalgar o resto, a testa. no último átimo em que flagrara o semblante do homem o suor se espargia como uma bicha lavradora. no seu, o suor ultrapassa a parede de esmalte, e acontece. então ele, que tem um problema na tireóide, estufa os olhos e enconcha as mãos empurrando o suor para os globos, sentindo a ardência das formigas de fogo; sincopadamente depois começa a descascar a pintura da testa, deixando o reboco cair no in-oitavo, os olhos estão sangrando por causa do suor impingido, dois filetes calmos coexistem no queixo, que deixa pingar uma gota na brochura do in-oitavo. ele não teme perder a visão, porque já é cego, fisicamente, graças a Deus. o andrógino feio passa a folha de rosto do seu livro da vida, onde escreve, com as sardas ruivas apodrecidas “sei”. sua boca cai rente a folha e ele começa a babar uma baba enérgica, que atrai Jesus e fá-lo sentar-se metasamaritanamente perto do passarinho. a baba toca-lhe as vestes, penetra, avança mais um pouco e chega enfim num paraíso portátil que chia como um rádio portátil nas mãos de um camelô. de longe Chagall pinta duas corcovas de um camelinho.)
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