18/08/2010

linha cruzada
o fogo cruzou uma conversa contigo, uma das que eu não prestava atenção, e tu colhia das minhas extremidades as lascas necessárias à edificação de um alicerce, um tombadilho, um altar, uma paliçada, um poço, um ábaco, uma bruxa, um sotaque, um caderno escrito com seringa, uma agulha de sangue com cantigas no lugar do sangue, que era o material de que era feita e invocada a agulha. minha atenção se prostrava às tuas unhas, que chiavam como rádio, com um fósforo eu as acendi uma a uma e uma a uma ia jogando as unhas no rio, o único barulho não era o de uma chapa de brasas mordendo teus mamilos, como já tinha acontecido quando trabalhavas na Padaria Dilúvio, havia como um milhão de câmbios-desligo na linha diagonal da água, e a infantil ressonância de um violoncelo no ricochete, e os dois sons montavam na cacunda, e um terceiro, não excluído, concomitava vômitos de pombas, um peido ditador. xilogravada a sétima sobrancelha no meu rosto, e eu não me assustava, tua distração atraente, e o fogo atingido em cheio pelo desejo, ele se aproximou o suficiente. ele foi um inocente de pulmões de suspiro. ele suspirou tanto que fez dois oásis ganharem raízes de uma floresta que, inteiramente fixada abaixo de um deserto fez o que pôde fazer na ceia do holocausto, e os troncos e as folhas ficaram, ronronantes e em coma, às caravanas meditativas, e as raízes voaram, os mais temíveis pássaros, mas jamais parricidas, e migraram para e enxertaram-se nas veias dos dois oásis, pagãs e intranqüilas, duas favelas acesas, as raízes apareciam por luminescência. o fogo não se sentiu culpado, ele ficava tão vidrado quando ouvia as baleias gemendo ante uma graciosa anêmona mendiga, o fogo se sentia perfumado pelo olhar, e sentia que escrevia um diário em algum lugar, e sentia que até podia penetrar-se, e fazer filhos consigo, e as baleias não sentiam dó, elas sentiam fogo, e a anêmona foi convidada para as suas núpcias, o fogo sabia, o que o fogo não sabia sentia, e o que o fogo fez foi não se arrepender, e ele se envolveu tanto com os dois oásis que estavam sobre a ponte, que, sem profecia, teve um acesso de soluço de miniatura de papier-maché, e o fogo ignorava membrana e coaxo e tinta-guache e tinta de polvo ah e ele caiu bem na substância que era um gêiser manso sem fluxo fixado e silencioso entre os cadáveres dos bambus! o cretino fogo se derreteu e se transformou numa rede (a música queria um fundo musical para se sentir ridícula)(ela ingeriu nossos hábitos e ficou a par, de cor e de quatro)(nós ficamos nus sem os hábitos, sem o sim)(uma ilha de alho para um vampiro náufrago)(parênteses para aspas)“aspas para parênteses”(sociedades secretas para formigas-de-fogo)(você já tinha mudado seu olhar quanto ao meu hábito de lamber insetos)(eu já amava matemática). a rede balançava de um modo completamente transviado. inerte, chegava a um privilegiado pavilhão de cumulonimbus, de um jeito terrivelmente imoral a rede voava, imóvel, a não ser pela seiva que convergia toda para ela, e a rede ficava lengalengadora e asquerosa. a parte branca dos olhos chamava de esclerótica os lábios pintados de branco da rede estudiosa sem preguiça com todo o tempo devotado à alquimia, a carta do eremita. daqui a pouco fedia, e os alienígenas de domingo que passavam reconheciam o cheiro, suas roupas domingueiras riam-lhes, os manequins mofavam e as roupas lhes riam, e sonhavam com um limbo de mofo no lixo. o que mais porejava escárnio das roupas purificadas era seus donos se escandalizarem com o odor da rede, e nem se debruçarem ao céu, para morrerem de paralisia facial erétil, ao mirar dois oásis indo e vindo, pois a rede se balançava pelas paredes. então numa das vindas nós dois te roubamos de tua mãe, filho de Ló, filho de Jó de Ahnizairam meu tchuthuquinho

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