05/06/2010

egon

eu amo você
falando assim inteligivelmente eu amo você eu amo você (me mexendo)
eu ainda não tossi mais forte para criar uma palavra mais incômoda eu amo aí
eu fico amando e você e cada
estalactite do seu espírito se desmanchando inconcebivelmente eu
amo você com a ausência do lápis eu
tive que apontar a caneta com a faca não
tive também estilete sobretudo
não tive a capacidade de
apontar o lápis que se me tivesse
riria ou choraria ohoh
como não me apontas! oh, eu te imploro,
aponta-me! essa
sua impertinência de carne de ranúnculo manso

eu bem sei
é, brincando de pronunciar como
um sábio, assim, eu bem sei disso
e eu bem sei da sua tez
da aleivosia das suas células
e de vestígios de canção
pelas escadarias

pausa para amar você: quando soterrada
e quando soterrada sob a data do próprio furibundo inferiorizar-se
semente nunca bela, semente e raiz ringida
e rosno ganhador
de qualquer concurso
do mais doce de todos os doces,
um eremita, pois que sem competição, sem religião com o caminho rente dos atraentes
e o leito dos esforços, unha de cada dia, dia de cada dedo e nenhum indicador
grão de mão lá
e a inquisição tosquiando a pele, e a pele da mão que pede fora da sarça relincho de violino relincho
e depois de criar a glândula, a pergunta da angústia: e agora?
segundos depois alguém para por num papiro seu gênesis, que foi apocalipse por desamparo puro e pureza furacã
mas eis um que não deixa de te gritar e o grito a runa a lasca o talhe a goiva que atrita a maçã do mais indiferente rosto e gesto e eis
e eis o ex escriba o imperador da elegia no pico da sombra dessa pirâmide embrulhada
que é
uma só
das suas bochechas
eu te salvo com asas de cera, sol

...existe uma rua onde se passa e se ouve de repente apesar de eterna a beleza
embalos, lengalengas, ronronos e choques da mais absoluta suavidade
para bebê nenhum
e essa rua é quando seu suspiro se evapora para logo chover no mar que eu sou e meus cavalos
não cavalos-marinhos
cavalos na zona abissal

eu sei tão bem da cólera do seu rio que se recusa ser chafariz,
da sua onomatopéia em plena revolução
ela chega para pedir água e recebe a fuga
pois nunca precisa chegar à convulsão
mundana chega, se abana sem leques,
e a brisa é a comiseração
ensaiando riscos de água, do que você precisa, do que você sempre se empobrece
e precisa
e pede
e cede um cavalo do meu oceano, uma montanha de talo partido subindo para a superfície e a crença de sereias, e a balbúrdia
a crina gritante e infisgável
porque do tamanho de uma formiga que nos celebrou
e eu sou sabido da minha cacofonia noiva de quem não é inocente ao me saber, você de cromossomo inocentado, o que nós fazemos se não podemos reproduzir juntos
é protegido e livre, protegido e livre de nós o sabermos
e protegido e livre de ser estátua as lendas que contornam a nossa cabana, sem chafariz no pátio, aí eu amo você joão sem-anjos primeira pintura de schiele depois do nascimento de schiele

...tão bem da vontade súbita de fazer cocô, e não necessidade,
mas a inspiração,
o amor nisso
e amor nisso que sou eu, o nicho, o lixo, a obra, eu que moro debaixo do pano da tábua de passar, e da lona do caminhão, quando o mundo era uma íngua
sem essa tábua, sem essa lona, sem qualquer que mate a míngua
um caroço ator representando fruto algum, é emocionante
“a nossa tendência para a cosmogonia” assim, a única ironia, serrote potente mas que dentes cegos, que dentes cegos, que figos sem azar! que figos sem sofrimento! que dentes cegos!
véu que acabou de nascer com nada parecido
eu não explico, o ferro não passa e a lona não se estende
pelo jeito é assim mesmo, desse jeito, dessa cicatriz sem ferida anterior
essa lepra feliz
esse grunhido seráfico

e os cavalos, e todas as espécies de cavalos, até Hitler, até o cupim
e Dioniso
distraídos demais para olhar as estalactites derretidas de você
na manjedoura, para eu beber, chegando do jardim a salvo e a quê? a você
minha matéria, meu enigma e minha inépcia, eu você (tirei aquele
amo pois nós somos desastrados enquanto os ratos nos são e as caudas urgentemente subjetivas)
essa vista embaçada e orgulhosa, eu não pisaria em Plutão
de óculos, imagina no Senhor

uma música de poucos minutos
ante a infinita abóbada de minutos de um dia total calçando pés –
os meus
para pedalar rumo ao silêncio mais deus
esse quase silêncio – música que se repete porque eu comando o retruco –
esse quase silêncio que é
o seu pulmão
pra fora

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