21/03/2010

o hesitador

eu acabei de passar aqui.
não foi com sangue que eu escrevi – no minimalismo
de uma sofreguidão quieta
foi que sublinhei o rio, que rio, não sei,
mas foi nele que perdi os esboços de luz
que se me apunhalaram, como sonhos encaixotados,
como a verdade pousando, como eu participasse
de toda a sua luminescência.
acabei de passar, e se não estou aonde havia passado,
é porque lá ficou uma trouxa indisciplinada
do que eu ainda não sabia, mas pelejava.
me lembro de ter escrito: para escrever penso em poetas,
meu erro de estimação. Como se nem “foder”
fosse meu. E o tato
fosse o meu guia
entre a costela íntima
e a glande do universo. Eu que troco esperma
comigo mesmo, e o mundo sobra dentro.

meu discurso é aproximação
e não é novidade aproximar-se, o destino é novidade?
meu nome é estou prestes à rocha movediça
da sinceridade
e eu poderia ser sincero já
e esse o meu tempo mais verdadeiro – poderia
porque tristemente é fosco bradar: eu sou o que sou
já que eu não passo de um que passa.
(como se os escritos não fossem para ser meus, eu nascido
tivesse só para escrevê-los, e a isso chamasse de heroísmo,
martírio, galhardia, minha sutil mediocridade transformada na
humildade puríssima de um sujo, o assunto do santo,
o susto do infenso, que anjo mora nas próprias asas?)
(que espécie de parentes de Deus me anunciaria em estado bruto
meu estado bruto?)
(me diria o poema sem poema, aquilo que já nem mais esperando eu
fosse, de tanta perdição engastada, me diria:
estou próximo de mim
estou próximo de mim
estou próximo de mim,
próximo, próximo, próximo,
pertinho)

mas talvez a sinceridade esteja tremeluzindo
por aqui por perto em mim
(Deus, e se nós dois fôssemos a timidez um do outro?)
feita de esboços de si mesma, e por amor,
de mim mesmo, e por amor a mim,
de mim mesmo, de mim-mor.
meu maior acalanto, meu Festival e Morte,
minha coleta de espasmos e calmarias
entornadas de neurose já sem vida – já sem a minha vida.
e o tédio o indestronável rei de um instante mágico (quando de repente
pensasses: vou fazer a comida)
daí também passarei (eu sei que Tu temperas a comida
com os pés) mas como o infante que eu sempre fui,
sem que o sempre me aniquile,
sem o que mais hesitar
o infante de nariz escorrido, largando o brinquedo de ouro
só para limpar o nariz do seu sofrer.

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