08/10/2010

o carrinho do furacão


alguém anda roendo minhas coxas
não é a chuva
não é a corrente da bicicleta
não é o grampeador nem o abutre
não é a muriçoca não é a macumbeira
eu tenho certeza, eu estou absoluto

mas que alguém anda roendo
as minhas coxas anda
ah anda
eu controlei entrada e saída do mito
untei os olhos do meu sussurro com manteiga vermelha
eles se tornaram pajens da minha saudade
e se tornaram maduros como peixes enferrujados
eu iria dizer como peixes fumantes
alguém anda puindo minha língua porque eu iria dizer mesmo era que eles passaram do ponto e caíram podres no chão
não no chão, legitimamente, mas na poça violeta da olheira
as sentinelas maduras
com tinta violeta fluorescente numa tocaia de lama
o sol se arrepia e eu vejo no fundo da pelagem nada, nada Sofia

chamei, chamei sim, puxei ele da estrada e trouxe ele pra cozinha
eu nunca vi um homem de quarenta anos comendo uma manga
então eu chamei meu pai, eu estava com meu caderno aberto, o lápis escondido na cueca, e ele começou a comer a manga
mas é claro que num foi ele, ele tava muito compenetrado
isto é eu estava compenetrado e ele desinteressado,
como oficialmente se bifurca a dualidade da serpente socrática
ele terminou de comer a manga eu não tenho nenhum lapso nenhum branco nenhum cisco nenhum pai desde 1992
e é por isso que meninos que escrevem são inacreditáveis
não mais que meninos que jogam futebol, mas são incríveis
eu dei a manga com a caderno na mão, eu escrevi tudo depois
ele pensou que eu fazia sabor fiado, e que eu chamava de pai por charminho
eu realmente fiz origamis, pai, tsurus, sim, mil tsurus, na verdade 999 porque o milésimo é este trechinho de hardcore aqui
lê papai, crê, eu não sou um vírus
eu não sou seu vírus
você é o meu Papa de Látex

eu estou justamente certo
implacável e peludo, meus olhos há muito transformaram-se em bigodes
um dia algum destes objetos sonhou em colá-los
com que cola eu fiquei curioso e perguntei e tive a intuição
seria com o sangue destes objetos, com o sangue
mas até então a tábua de passar anda mais macia do que nunca
não foi ela
não foi
não adianta não foi ela
mais macia do que nunca
toda cheia de vida, sem sinais de sacrifício

tampouco o ferro de passar
tão musculoso e sem orifício
ah, sem orifícios, sem orifícios, sem cáries
como os dentes da minha boca
não as minhas folhas! as minhas folhas!
como que você pode imaginar que as minhas folhas
me sabotariam
como!
minhas folhas de boldo são perigosas somente numa chávena
minhas páginas só ardem se eu engolir uma frase toda do seu livro
eu só bocejo se no meio dele vier um beijo
ah, eu me referia à Fernanda Montenegro
eu sempre me referi à ela, sempre
que sortilégio é esse de felipe dylon?
alguém ronda por aqui anda de mansinho
não são minhas noites em claro nem em luz leitosa meus insights
não não são os meus salmos
eu até levantaria sobrancelhas pelos meus provérbios
mas eu não tenho sobrancelhas
elas triscam o céu no topo do entulho do xeque
tudo depositado em xeque por sua verve alvoroçada

eu me feri completamente num quadro de Kandinsky sem arames farpados
só tinha borracha e... cerol
e pão
mas não havia nenhum Judas, ou nenhuma Judéia
Cristo é o Anticristo
eu sou você e minha mão é ambos
e minha mãozinha não anda fazendo escondido o que a outra não tenha querido

descarte hitler, descasque uma tangerina, descasque uma vaca,
descarte minhas vitaminas de cupim e meu anabolizante do bate papo uol
ó meu porco não foi minhas pérolas meu pé de alfavaca
minha asma! SANGUE DE JESUS TEM PODER
COMO QUE VOCÊ É MAU PRA FUXICAR ISSO DA MINHA ASMA!
meu boi só come anagramas
minha esperança acasala com pistas no cio
mas meu cansaço e meu amor não sabem o que é direito e esquerdo
não tem essa divisão no meu corpo
não foi o barão de Charlus, espertinho, eu não caio nessa sua lábia!
não foi o barão de Charlus que já morreu.
nem a Vera Verão que já morreu também
alguma chance de... Peter Pan!
ou aquele poço ali no quintal
Senhor, o poço

água fresca na boca da minha raça
não foi o meu pocinho de brinquedo
o meu único socorro constrangido
o carrinho do furacão não passou nesse verão
não foram as aulas de religião
não é o pesticida à base de suor
nem o fogo que não se mexe na foto
nem o filhote do eucalipto
minhas virilhas parecem um soneto
não é O Espírito Santo
minhas virilhas mortinhas feito o joelho de rimbaud
não é o raio laser do seu sêmen, Proust
NÃO ME DIGA QUE É O RAIO LASER DO SEU SÊMEN, PROUST

ah, William, todo cheio de vida
todo cheio de amor

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