02/06/2010

forragem







eu dormi debaixo da cama
e acordei e vi detrás da parede
a cama mexida
um caracol árido
resfolegou
naquele gesto uma vez conhecido
quando vi um menino com um esgar
e uma folha na mão, e ele recitava para si o que tinha acabado de escrever
ele dizimou minha cama em busca de sua umidade
e foi um índio convalescente
e não teve tempo para ser o espaço
mas eu estou debaixo da cama
com chuquinha nos olhos
a pata da anta são seus olhos
e um violão

liame, liame, Coco e Rosie não cantam para mim
mas elas são o meu liame
e a minha ordenha
elas me fazem ser um xilofone de grãos de areia
eu me toco com dedos de nômade
e um coração fixo
como um bico de feto, não precisa ser de fênix ou urubu
é O Bico
ignorando os pés
no Fio
a cidade conta meus anos antes de dormir
apenas dormente

e tenho 17 anos mas sou livre de ignorar
eu sei, só,
é pouco saber,
é muito saber e nada mais,
meus acenos são feitos com as mãos debaixo do chão
e o muco denuncia fora do nariz
uso meus tendões para fundir palavras e precursores
em torno, e não em mim,
e não de mim, o suor é do sol na minha pele alugada
e as oferendas se atrapalham e espatifam a face do passador de uma tarde completa ocupada
meu louvor que foi uma leitura, quando eu li emocionado ofertando
e o emblema, de renda e arroz e paradeiro morcecal
configurando meu queixo presenteado
à transfiguração
do Sismo
do vento simples, do vento, O Vento,
retalhado e luminescente por Ele
mas aqui prospera uma elegia puritana e eu ponho “puritana” porque é o que veio, o sentido da raiz não se chama pelo sentido da semente
a copa é copo
reboando incauto na planície
com cuidado eu defronto um império e a ele ele se imanta
o copo e a escada
eu sou Eros
e sou anta derramando choro

costureira secreta
no dorso da aranha
teia outra
matéria outra
espírito outro
vértice-convulsão
vórtice-bóia
linha-transe

eu telefono para dizer que não sou especial
e que tudo está contido numa mesma Tigela
e que as palavras feliz e infelizmente foram inventadas no século do tédio
mas atrás da besta insiste
e esbate
a aranha e a nuca
a nuca da nuca
cérbero sífilis se feliz
em seu dorso feito de primórdio e serenidade
um outro manto se prende ao nu que morre afogado na margem por não chegar no pico da água já a primeira agüinha a primeira irmã o primeiro irmão
a primeira mãe a mendiga ulterior
um manto que ora a não-oração
eu não sinto todas as palavras que escrevo, elas são inóspitas de mim,
eu sou sua alusão
comboio, urtiga, comboio, urtiga,
pederneira
eclâmpsia
trilhos de diário em branco
porque eu tenho escrito símbolos prematuros
precoçados e sem pescoço
ou mais pescoço ou só pescoço
cantiga do pescoço que é
uma península pende, eu não tenho escrito o óbvio
e o cotidiano fica na dele
minha pressa é um olho desenhado na palma do sal

os trilhos raspam o principal do suado
num espreguiçamento
eu sou um estóico na rede
e vencerei o verbo no futuro
não posso ser um profeta fora de mim
não sou um profeta assim
meus pedaços me transgridem para me salvar
os personagens latem para o branco estranho que mina dos sexos

escrevo para ver no futuro – verificar –
e penso em como era com ele
qual Rimbaud foi a bolha pura
forjada de uma guerra de espécies no barco
demônios contra demônios
17 rimbauds e 17 alices e 17 são franciscos
me chamam de Lamuriante

eu parei de recitar e lamentar não ser o ser de um pássaro
porque saiu catarro do meu bico
foi por um segundo e ninguém viu
todas as canções o foi

o que está preparado
do lado da outra estrofe
depois do estrambote

que pacto
que carícia
que virilha
escorrega
pelo varal tecido
e me pacifica?

e não me pacifica
mas me expulsa
para o lado invertebrado do nome?

amor, resposta, centeio, vermelho
eu posso reconhecer em sua pele
mas
eu
preciso
ver
como
uma
pele
mira
sem olhos
sem pensamento

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