"Minha Jerusa, minha Jerusinha, por que tomas distância? Mas que mal eu posso te fazer que te amo tanto e mais que preceitos. Que mal fiz eu? E por que me olhas com esses olhos já há léguas, que oh disseram-me: nunca mais hás de beber do café de nossa dona, e da tua, que te expulsa da uma só carne fugindo - já préterito-mais-que-amor-perfeito. Pronto, eis o meu melodrama, como quiseste, naquela noite véspera de tudo, quando o livro tremia por meio de mãos tão parturientes. Pois não era por elas que os serafins brotavam?
E tu te enganas, onde estiveres, e tu te equivocas charmosamente a outro, mesmo em mim a dor criança imperatriz. Por um triz, mas por um triz não acreditarias que não estou sendo mais melodramático? E que esta é a secura residual que se esforça por sacudir-sacudir teu resíduo de corpo em mim que despertes do veneno que eu mesmo te dei - e agora precisamente o melodrama ressurge, titânico e virgíneo, como podes? hás de indagar-me, mas eu já te deixei para ajoelhar-me à clausura do mosteiro de minha sombra, um ensaio de asas selvagens em paroxismo: como podes tu untares toda a culpa por teu corpo ou untares tua fôrma com que satânica culpa ante o iniludível tempo certo para todo feito, meu amor-perfeito!
Resto em mim, desavechado, parindo, parturiente, não é do meu estar que és, oh minha sombra romântica em murros? Oh meu gritinho indolor. Resto mentindo, qual dissera de ti: sombra inodora, qual o amor-perfeito nunca chegado às minhas narinas. Sinto tudo tão pouquinho - não é 'nada' - é pouquíssimo - e vesperal. Qual naquela noite, a noite prometida para minha mãe em casamento com os céus, paquerando-lhe à beira do féretro. (Mas Jerusa, erraste o livro! Suspirarias trêmula à paixão dos Cantares, contudo capotaste em terremoto aos pés do Eclesiastes, no bojo da sabedoria! A sabedoria não é para se sofrer, minha Jerusa, minha ondina!) Se talvez houvesse-lhe empoado o rosto. Mas todos os poros abertos, e abalados. Pertinho, cacei na face o semblante, e no semblante o feixe das covinhas, não as que me davam seu o rosto de mendiga eremita. Nem desejei a apoteose - ao ser relampejado pela metáfora, tal fantasmal metáfora, a transfiguração gritada, feito um provérbio de si destituído, pensamento sem cisma e aspas e o sentimento recolhido das carpideiras, paralisadas, traídas, sem o que venerar, como durante tudo tivessem espalhado suas listras e agora recebessem o título de tigresas vãs. E minha mãe vinda sem boas-vindas, acordando no caixão a pedir água, qual pedisse um salmo."
-...Mas nós vamos panfletar isso?!
-Alguém deve saber que a imaginação é incontrolável, que um prédio de cem andares pode se enfiar num madrigal, que um menino pode jorrar sêmen no dia da morte da tia, sem freios como um dom pousado num desastrado, e o caráter da palavra perfeito fosse medido conforme o caminho e o caminhante, como o caminho que se eriça e cora com o corpo descorado do seu peregrino ferido, que a tartaruga e a mariposa vivem juntas, apesar do tempo que as enxotam de si mesmas, que você já matou Deus e que Ele não morreu e tampouco morreu em você, e que eu fiz a minha mãe sorrir contando uma piada em pleno velório dela.
-Quem precisa saber disso senão você mesmo?
-Não foi uma piada, foi uma coisa que me apareceu na hora, uma cantiga de ninar assustadora, eu não estava fora de mim, eu sei que... ah me larga, ela sorriu do mesmo jeito como você tá sorrindo agora.
-...Mas nós vamos panfletar isso?!
-Alguém deve saber que a imaginação é incontrolável, que um prédio de cem andares pode se enfiar num madrigal, que um menino pode jorrar sêmen no dia da morte da tia, sem freios como um dom pousado num desastrado, e o caráter da palavra perfeito fosse medido conforme o caminho e o caminhante, como o caminho que se eriça e cora com o corpo descorado do seu peregrino ferido, que a tartaruga e a mariposa vivem juntas, apesar do tempo que as enxotam de si mesmas, que você já matou Deus e que Ele não morreu e tampouco morreu em você, e que eu fiz a minha mãe sorrir contando uma piada em pleno velório dela.
-Quem precisa saber disso senão você mesmo?
-Não foi uma piada, foi uma coisa que me apareceu na hora, uma cantiga de ninar assustadora, eu não estava fora de mim, eu sei que... ah me larga, ela sorriu do mesmo jeito como você tá sorrindo agora.
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